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(EXCERTO...)

“…a este respeito, aliás, posso contar uma história bastante bizarra sobre um encontro. Vive aqui na região uma mulher nova, uma rapariga, bastante bonita e com uma figura atraente. Eu nunca a tinha visto a menos de 50 metros de distância e sempre a tinha achado muito bonita. Tinha uma tez muito fresca, olhos grandes, muitos escuros, e pescoço comprido e muito branco.

Sempre alimentara a terna e sedutora ideia de me apaixonar por ela. Mas nunca a via senão quando havia algum concerto de órgão na igreja de Vaster Vala – pouco convivi, naqueles anos a seguir ao divórcio, fora do trabalho.

Por fim tive vontade de saber se seria verdade o que eu tinha imaginado acerca dela e encontrei uma boa oportunidade. Numa pausa de um concerto do Quarteto de Koping, fui ter com ela ao pórtico e cumprimentei-a.

Não tinha nenhum plano, nem outra ideia que não fosse ver o que ela diria. Bem, falei um bocadinho com ela, de uma forma neutra e delicada, mas justamente quando ia abrir a boca para me apresentar e olhei para ela, apeteceu-me ficar calado.

Vi que ela tinha no rosto uma espécie de furunculozinhos, ou borbulhinhas, como se tivesse alguma doença de pele esquisita, e isso fez-me imediatamente mudar de ideias. De qualquer modo falei-lhe, e ela respondeu e conversou comigo delicadamente, de uma maneira bastante agradável. E, falando francamente, não é possível que eu me tenha apresentado justamente num daqueles irritantes e inconvenientes dias em que o sexo está proibido. A verdade é que ela é considerada aqui na terra como muito bonita.

No entanto senti uma espécie de alívio depois daquele encontro. Ele libertou-me daquilo que parecia ser o início não muito agradável de um desassossego, e eu tenho o mau hábito de me prender a todo e qualquer objecto que me desperte essa atenção inquieta.

Mas a grande pergunta a fazer é, evidentemente:

Quando amamos alguém, ou melhor, nos apaixonamos por alguém, por que é que nos apaixonamos verdadeiramente?

É uma ideia da pessoa amada, ou é a pessoa propriamente?

Talvez só sejamos capazes de viver com as nossas ideias.

Talvez sejam sempre as nossas ideias que amamos.”

 

Gustafsson, Lars (2001) – A morte de um apicultor. Asa Editores. ISBN 972-41-1083-4


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